Ela deitou-se, de olhos fechados, sentindo em toda a superfície do seu corpo o descanso merecido. Como o do guerreiro. Porque a vida, muitas vezes, é como se de uma guerra se tratasse.
Mas ali, naquele momento, baixou todas as defesas erguidas ao longo dos últimos tempos e deixou que a paz entrasse em si como não fazia há muito.
Foi abandonando o corpo e deixou-se pairar, etereamente, sem nunca abandonar o espaço próximo.
E adormeceu, no sono tranquilo das decisões tomadas durante o dia. Só depois de estar num sono profundo uma lágrima teimou em aparecer, tímida, a contrastar com o sorriso que lhe pairava nos lábios. Porque o sono também é feito de contrastes. E abraçou a almofada como se fosse o corpo do homem que outrora amava, num desespero de causas perdidas. E as lágrimas começaram a vencer o sorriso, em catadulpa, enquanto ela se foi enroscando sobre si mesma.
As decisões, essas, estavam firmemente tomadas.
E só a almofada teve direito à tomada de consciência da solidão porque, quando ela acordou, sacudiu o cabelo, lavou a cara com água fria e deixou os fantasmas na cama. Para sempre.