Olha-me nos olhos enquanto me despes, devagar. Atira as peças de roupa uma a uma para o chão e cola o teu corpo ao meu. Sente como vibro de desejo por ti, deixa que sinta o toque quente da tua pele com os dedos.
Explora-me o corpo com as mãos, com a boca, com os olhos.
Invadamos o mundo dos sentidos até nos perdermos por completo um no outro, numa troca de extases e carícias mútuas.
Arfantes, fiquemos assim um pouco mais. Damos as mãos enquanto descansamos numa cumplicidade que só nós conhecemos. E, no fim, beija-me levemente os lábios antes de nos separarmos.
Porque, sabes, pode ser a primeira ou a última vez, pode ser apenas a única. Mas ali, naquele momento, tu foste inteiramente meu.

and the bird said: nevermore!

Ela deitou-se, de olhos fechados, sentindo em toda a superfície do seu corpo o descanso merecido. Como o do guerreiro. Porque a vida, muitas vezes, é como se de uma guerra se tratasse.
Mas ali, naquele momento, baixou todas as defesas erguidas ao longo dos últimos tempos e deixou que a paz entrasse em si como não fazia há muito.
Foi abandonando o corpo e deixou-se pairar, etereamente, sem nunca abandonar o espaço próximo.
E adormeceu, no sono tranquilo das decisões tomadas durante o dia. Só depois de estar num sono profundo uma lágrima teimou em aparecer, tímida, a contrastar com o sorriso que lhe pairava nos lábios. Porque o sono também é feito de contrastes. E abraçou a almofada como se fosse o corpo do homem que outrora amava, num desespero de causas perdidas. E as lágrimas começaram a vencer o sorriso, em catadulpa, enquanto ela se foi enroscando sobre si mesma.
As decisões, essas, estavam firmemente tomadas.
E só a almofada teve direito à tomada de consciência da solidão porque, quando ela acordou, sacudiu o cabelo, lavou a cara com água fria e deixou os fantasmas na cama. Para sempre.

Sabe o que é engraçado?

Continuo aqui, assistindo ao magnífico espetáculo da vida passar lentamente enquanto eu quero que ele corra, apresse-se cada vez mais, e acabe de repente, com qualquer final, dramático ou não. Incrível como certos textos e certas palavras direcionam-se para esse mesmo espetáculo, que eu particularmente prefiro não dar importância… o enredo não importa mais, muito menos o desfecho.

E como está quente hoje, não?

Separação

Eis que aqui estou, só como naquela tarde em que te conheci, lembra-se? Certamente deve se lembrar, apesar que sei de que não passo de um feixe de uma lembrança qualquer na sua memória agora.
Engraçado como as pessoas vão tão quanto vieram na nossa vida, você não acha? Ha! Você não acha nada, você não sente. Vive rodeado de pessoas, querendo elas seu bem ou não, e se contenta com isso.
Agora eu, eu vivo só. Eu, que sempre gostei da solidão quando tinha todos ao meu redor, passei a ter medo dela.
Eu, amargurada por saber que penso em você todas as noites antes de dormir, assim como quando passo em lugares que foram nossos num dia qualquer de tédio mútuo, e você, você já não pensa em mim.
E as promessas de que seríamos eternos companheiros se esparramaram como se esparramam as nuvens num dia de sol. Mas hoje não há sol, nem chuva. Hoje só há o grande cinza dentro de mim. Eu, que sou esquecida nesse quarto empoeirado diante ao albúm de fotos que prefiro não abrir.
Difícil aceitar que todas as nossas verdades caem por terra num piscar de olhos, não é mesmo? Assim como o mundo está em constante transformação, as pessoas também estão. E essas mesmas pessoas são as que nos ferem com o adeus não proferido, mas tão bem executado.
Quem dera você tivesse a coragem de olhar nos meus olhos e ver todo o sentimento que já foi devoto a você um dia, e se arrepender. Infelizmente esperanças nunca foram certezas e eu continuarei aqui, até que você se sinta só como eu me sinto agora, e possa entender.